sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre o livro Antropologia do Candomblé – Desvendando os Mistérios dos Deuses Vol.II


É imprescindível repensar o Candomblé. Repensar o negro dentro de suas origens, sua cultura e seus cultos. É preciso repensar o candomblé não como folclore nacional, mas sim como uma organização de cunho social, cultural, religioso e político.
Cabe aos descendentes diretos ou indiretos dos africanos que vieram para o Brasil trazendo com eles os orixás, com seus mistérios, fundamentos, segredos e que sacrificaram tudo isso como também se dispuseram ao sacrifício em prol do seu povo, que contribuam para valorização desta cultura não deixando que este legado seja extinto ou desvirtuado através de artifícios criados com os mais variados propósitos.

O objetivo desse livro é para falar sobre os orixás, o candomblé primitivo paralelo ao contemporâneo e principalmente sobre as distorções lingüísticas usadas na formação dos verbetes (orins) não só cantados como as frases usadas no meio “candomblecistas” atualmente.
Este livro será de grande utilidade, não só para os iniciados no candomblé como também para os pesquisadores e interessados na sociologia espiritual e cultural. Ou seja, creio que será de extrema importância para todos aqueles que buscam aprender o linguajar do candomblé de origem sudanesa. Digo de origem sudanesa, pois se os Yorubás são oriundos do Leste e é citado como sendo do alto Egito (que faz fronteira com o Sudão), ou do deserto de Núbia que fica no Sudão, podemos considerar de certa forma que a origem da língua Yorubá é sudanesa.
A antropologia do candomblé passa pelo conhecimento do culto milenar da cultura de cada orixá; pelo seu linguajar e todos os seus fundamentos; suas variações orais étnicas; sobretudo, pela formação dos verbetes e tradução correta dos mesmos.
A língua Yorubá assim como todos outros dialetos tribais é repleta de metáforas e como tal é preciso muita atenção e conhecimento para um bom e correto entendimento sobre as mesmas. Os primeiros cultos afros praticados em terra brasileira, sem sombra de dúvida eram os da cultura banta, que são os escravos sul-africanos à qual pertenciam os angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques e outras da mesma linhagem e seria chamada de; Kibemba, Maka, Makuzuela, Malongi, Mambu. É preciso salientar que os portugueses começaram a transportar esses escravos africanos para o Brasil no início do século XVI.
Bem mais tarde chegam aqui no Brasil escravos vindos do Senegal, Costa do Marfim, Togo, Benin (Dahomey), Ghana, Zaire, e Nigéria que traz o Yorubá também conhecido como Nagô.
Vamos então juntar todos esses povos de várias pátrias e etnias diferentes dentro de uma senzala. Há de se concordar que seria impossível não haver uma mistura de idioma e cultura muito grande, até porque se não houvesse eles não teriam como se comunicar entre si. Não podendo também deixar de acrescentar que as maiorias dos orins cantados no candomblé são procedentes dos escravos que através desses mesmos orins cantavam seu cotidiano, suas dores, lamentos, esperanças e até pequenas alegrias; porém a maioria são versões destas mesmas versões colhidas por barracões espalhados pelo Brasil. Essas versões foram traduzidas do yorubá para o português de forma didática e parcial, o texto como um todo, já que se entende que a mais ou menos 60% deste idioma contribuiu para a formação da cultura afro-brasileira, mesmo tendo fornecido apenas 30% de escravos para o Brasil.
Bem, todos esses tópicos citados constam no livro Antropologia do Candomblé Vol.II – Desvendando os Mistérios dos Deuses que consta de mais de mil verbetes (orins) ou cânticos como preferirem de Exu à Ọxalá todos com, várias versões e da forma que elas foram arregimentadas nos candomblés e no “mercado”. Podemos dizer que três ou quatro para cada entidade são originais, primitivas.
As traduções didáticas dos orins em yorubá obedecem às regras de todos os dialetos tonais, todavia as traduções do yorubá para o português obedecem às regras gramaticais de acordo com os sinais gráficos tonais impostos pela maioria dos dialetos tribais.
Atualmente fala-se muito em modernização do candomblé, eu falo em extinção; fala-se muito na modernização dos orixás e eu afirmo que há ausência de possessão. Se não, pergunto: levando em conta o histórico de cada um dos orixás, com sua idade, domínio e época de suas regências quando humano seria possível que eles hoje Deificado se modernizarem? Aposto que não! Ou que propositadamente em determinado momento e em detrimento das bases culturais e doutrinarias do candomblé primitivo e do culto aos orixás que criassem um candomblé folclórico para satisfação do ego de alguns babalorixás e yalorixás ou pesquisadores, escritores, historiadores, etc.
O livro Antropologia do Candomblé vol. II irá mais uma vez reacender esta polêmica e levar os bons zeladores a uma profunda reflexão, como a ocorrida nos anos setenta, quando coloquei no mercado o livro Angola Culto-Afro – Verdades, Conceitos e Críticas.
Não comentarei sobre fundamentos de roncó, porque isso só diz respeito aos babalórixás e yalórixás, mas sim as festividades públicas, já que hoje não mais se vê em lugar algum as festividades privadas, aqueles rituais levados a efeito única e exclusivamente para os orixás de cada casa em questão e seus filiados, suas comunidades. Falarei sobre os festejos populares, os quais a meu ver não tem nenhum precedente nas histórias dos orixás. Por exemplo:
_ Em que momento da história Xangô orgulhoso e presunçoso como era, isso entre a 4.000 e 3.500 anos atrás ele se ajoelhou perante alguém, ou caiu de joelho em praça pública ou salões de dança para mostrar ao público que sabia dançar, ou ainda jogando cabriola como temos presenciado ou escutado por aí afora. Sendo ele o rei, ou mesmo homem do tipo que era, acredito que nunca nem como homem e muito menos como ser ora deificado.
_ Qual foi o período da vida de Xangô que ele se deu ao desprazer de no momento de despedida de reuniões ou festejos sair apertando a mão do povo, única e exclusivamente dos homens, como temos o desprazer de assim vê-lo em várias festividades nos dias atuais.
_ Xangô assim como todos os outros orixás se reportam ao seu público através de gestos mímicos das mãos, dos ombros e dos passos, gestos estes que estão implícitos na sincronização com os ritmos de cada orin. Salvo uma ou duas facções criadas pela etnia jêje cujos oríşas se reportam ao seu povo através das cordas vocais da matéria possuída, porém usando a linguagem original de sua etnia.
_ A respeito de Inhasan, Oya, o triste é que nos candomblés contemporâneos, não só o nome como a própria entidade é sinônima de prostituição e libidinagem na interpretação da maioria dos seguidores dela, contrariando e denegrindo não só a cultura do candomblé como o culto e a imagem da mesma. Ao interpretarem a sua dança, como a dança da sedução, do acasalamento, o que é um erro gravíssimo, visto que os seus requebrados em sua dança representam nada mais do que as preocupações relacionadas com a luta cotidiana de um modo geral. O seu dançar rodopiando e sacudindo saia às vezes bem próxima das pessoas é a maneira que encontrou para externar a sua alegria e ao mesmo tempo ofertar, jogar o seu axé para todos. Mas, o mais ridículo e triste ainda é vê-la dançar os orins que contém a palavra ojo ou ojú, onde ela, entre aspas, tampa os olhos da matéria e às vezes sendo acompanhada neste gesto desvairado por todos que se encontram na roda, que estejam possuídos ou não. Isso sem contar que em alguns lugares a põem parindo uma boneca preta ou carregando esta boneca em sua cintura ou agarrada a sua saia.

A respeito da palavra òjo ou ojú, ou òjọ, ójọ.
Observem:
ọjó, substantivo = dia, data, tempo.
òjo, adjetivo = novo, fresco, moço, covarde; substantivo = covardia, medo.
ojú, substantivo = olho, abertura, olhar; fio de faca ou espada.
ójọ, substantivo = chuva.
bìrí, advérbio = de repente, repentinamente; adjetivo = pequeno, acanhado, que ocupa um pequeno espaço.
As armadilhas:
lóju, preposição = diante, perante, na presença de.
ọlọjọ, substantivo = o dono do tempo, o mestre do tempo, a vida, o dia.
wòlóju, verbo transitivo = seduzir, atrair.
ọjó, substantivo = dia, data, tempo.

Preocupado com a extinção dos lẹse şirẹ mimo ou lẹse şirẹ iyin (rituais sagrados), com os orins mimo (cânticos sagrados) e com os orins iyins (cânticos de louvor). É que digo e insisto que é preciso repensar o candomblé e muito rapidamente antes que os resquícios das chamas doutrinárias que ainda resiste contra tudo e contra todos não se extingam completamente.
O livro Antropologia do Candomblé oferece esta oportunidade às comunidades do candomblé para que juntos possamos repensar sobre não só sobre a seita como também sobre nós “candomblecistas”, pois que as labaredas dos motivos, das razoes sócio-cultural e política já se apagou faz muito tempo, dando seu lugar à aculturação cultural e ao folclore desta mesma aculturação.
Os dialetos tribais são umas armadilhas para quem não estiver atento ao seu tom, pois por mais sucinta que seja a mudança do tom empregado mudará todo texto por completo, isso sem falar nas metáforas, pois se nós não estivermos atentos ao assunto em questão não iremos entender absolutamente nada.

Exemplo:
Wá iná, ki’mi, p’odo, Ọdẹ Taayò, kú ilé!
Tradução: Venha luz, louvar-me, chame o pilão, Ọdẹ Tayó, seja bem vindo a esta casa!
Agora observe na forma didática.
Wá = v.t. procurar por, buscar; dividir, partir em pedaços. V.i. mover-se em direção, vir.
Iná = subs. fogo, luz. (luz = imólé).
Ki = adv. previamente, não. Conj. afim de que. V.t. encher.
Mi = adj. diferente. V.i. respirar, aspirar. Pron. Mim, dê-me.
P’odo= pé odo = chame o pilão.
Ọdẹ Tayó = alegre caçador.
Kú = v.i. morrer, estar inativo, ser impotente.
Ilé= subs. casa, mansão, residência.
Wá iná,
Kimi, p’odo,
Ọdẹ Taayò, kú ilé!



O livro Antropologia do candomblé vol. II será de grande utilidade para os zeladores e zeladoras interessados em fazer a coisa certa, com coerência. Observem que a maioria não só dos zeladores assim como ogans, ekedes, yawos, etc. distorcem os cânticos dirigidos aos oríşas, colocando palavras sem nexo dentro dos cânticos, subtraindo com isso as palavras que realmente compõem o orin, por ignorância e falta de conhecimento. Fora ainda quando proclamam que cantar assim é it, sotaque, charme. E o mais incrível é que os oríşas dançam estes cânticos com muita empolgação e coreografia. E assim volto a perguntar: será que isto é certo?
Muitos ogans na ânsia de aparecer, de mostrar para a platéia que sabem cantar criam nos momentos mais impróprios cânticos sem nexo, com palavras sem nexo, sem coerência musical. Isso sem falar quando colocam cantigas destinadas aşéşe aos Eguns dentro de toques destinados apenas aos oríşas, e infelizmente a maioria dos zeladores assim como os orixás aceitam isso de bom grado. Isto é certo?
Temos nos dias atuais oríşas capoeiristas, que dão cambalhotas, atropelando quem estiver em sua frente com coreografias feitas em cima de alguma palavra que tenha no orin, e a platéia aplaudem como se os mesmos estivessem fazendo jus ao que diz a cantiga, quando na verdade nem eles mesmos sabem o que está querendo dizer o orin. Mas, com profunda arrogância dizem que a moda agora é assim, e ainda torcem o nariz quando um oríşa ou um zelador mais antigo e conhecedor da verdadeira história dos oríşas procuram agir de forma correta. Isso é certo?
Em breve o livro estará no mercado.

3 comentários:

  1. eu tenho uma duvida muito grande: por que os evangêlicos acusam o candomblé de ser uma religião onde só tem encostos e onde se louva o demônio?

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  2. Jesus Cristo disse: e conhecereis a verdade e a verdade vos libertarás!

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  3. que religiao linda amo essa religao axe

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