sexta-feira, 1 de maio de 2009

LIBERDADE SEMPRE!



O interesse de Portugal pelo Brasil começou com a extração do pau-brasil, árvore na qual se podia extrair um precioso corante destinado a manufaturas de tecidos na Europa. Alguns povos indígenas no início, até concordaram em cortar a madeira e levá-las até o litoral em trocas de prendas que lhes agradavam, mas os índios viviam livres e tinham sobretudo o espírito livre, e quando se viram obrigados a trabalhar em função deste comércio se rebelaram, as guerras e conflitos se multiplicaram. Logo a saída foi substituí-los por negros africanos. E os portugueses, encontravam facilidade em usar o escravo africano, já que desde 1443 faziam uso desta mão de obra, como afirmam os livros didáticos. Esta substituição encontrava base na própria tradição africana que já tinha o costume de escravizar seus prisioneiros de guerra, chefes de tribo tinham o costume de capturar e escravizar pessoas de tribos inimigas, não que tivessem vindos pra aqui só prisioneiros de guerra, muitos foram capturados ilegalmente por assim dizer, às vezes trocados por bebidas, armas, tecidos, etc., outros por terem cometido delito considerados graves como o adultério e assassinato. Com a introdução da cana-de-açúcar aqui no Brasil no século XVI aumenta o tráfico de escravos que aqui chegavam em condições subumanas, quando conseguiam chegar, muitos não resistiam aos maus tratos nos navios negreiros ou tumbeiros e morriam, e eram então, simplesmente descartados no mar.
É interessante comentar o fato de se dizer, em alguns livros de História do Brasil que para Bahia foram enviados os escravos de Guiné, e para o Rio de Janeiro e Recife os negros vindos da atual Angola, Congo e Moçambique. A bem da verdade acima ou abaixo da linha do Equador todos os negros eram considerados “Da Guiné”, portanto eram de uma região bem ampla. Porém, é mais provável serem do Congo os primeiros escravos negros a chegarem aqui no Brasil. Para só depois de cinquenta anos chegarem aqui os negros vindos da Costa do Ouro, Dahomey e Benin.
Os escravos que aqui chegavam eram oriundos de várias partes da África. Pertenciam a etnias diversas como os Bantos, Edes, Nigritos, Lubas, Mussurumins, Benguelas, Cabindas, Ashantis, Ijeshás, Óyòs, Zulus, Haussas, Moxi-Congos, Mandingas, Fantis, Endembos, Minas, Fons, Ijebus, Ibos, Krobos, que perfaziam a um total estimado em mais ou menos 280 etnias. Logo, podemos concluir que traziam diversas formas de organização social, política e cultural. Imaginem então o choque do escravo africano quando aqui chegava que além encontrar um mundo totalmente estranho e hostil, já havia perdido seus familiares. Foram separados pais de filhos, marido de mulher, vendidos para destinos diferentes, sua comunidade totalmente perdida, arruinada.
E quando chegavam à senzala, os escravos ainda tinham que conviver com pessoas de etnias diversas, com seus dialetos e costumes contrários ao seu. Era de se esperar então, que para se comunicarem entre si, que houvesse uma aglutinação de dialeto e cultura, e foi o que aconteceu.
Além de ter sua identidade de certa forma desvirtuada, o escravo ainda tinha que enfrentar as péssimas condições no trabalho, alimentação insuficiente, higiene precária, sem contar com os castigos físicos. As mulheres escravas em nada eram poupadas, algumas trabalhavam nas lavouras, outras no trabalho doméstico atendendo a vontade das esposas e filhos do senhor, e ainda eram obrigadas a satisfazer sexualmente seus donos brancos. Por causa disso, e para não terem seus filhos a mercê de seus donos, muitas provocavam aborto, tanto sendo filho do senhor branco como de seu irmão de cor.
A reação a esse tipo de vida dependia do escravo em questão, uns agiam com submissão aceitando pacificamente tudo que lhes era imputado. Outros se entregavam a uma depressão profunda (banzo) que na maioria das vezes os levavam a procurar a morte. Todavia outros se revoltavam ferindo ou matando seus algozes, queimando canaviais, sempre a procura da sonhada Liberdade. Os que conseguiam fugir procuravam resgatar a sua vida qual era na sua Mama África, com seus preceitos, costumes, tentando assim preservar o que restava de sua cultura africana nos quilombos.
Voltando a aglutinação de cultura, acontecida tanto nas senzalas como nos quilombos. Creio ser de conhecimento de todos, que os escravos eram proibidos de manter seus costumes, rituais e tradição. Para disfarçar seu culto a seu Deus Todo Poderoso (Olorún, Lembá, Orunduze) e seus deuses intermediários, se escondiam atrás dos santos católicos para poderem assim render homenagem a seus deuses de origem. Fazendo um sincretismo religioso entre os santos católicos e os deuses africanos. É evidente que isso não aconteceu isoladamente, os escravos de etnias e culturas diferentes se uniram em prol de poderem sobreviver através de sua tradição. E assim nasce o Candomblé com suas preces e cânticos a seus Orixás com pedidos de Saúde, Proteção e principalmente Liberdade. De cunho social, religioso e político. Denunciando seus sofrimentos, perseguições sofridas; os planos de ataques a seus inimigos, de fuga; o cotidiano que tinham que enfrentar. Um Candomblé Afro-Brasileiro, que só aconteceu porque houve entre os negros africanos uma união de pensamentos, que tinha como intenção maior preservar suas origens culturais, e que na falta de seus sacerdotes primitivos, não se importavam em se adaptar a sacerdotes de outras etnias, o mais importante era conseguir, fosse como fosse, conservar a sua religiosidade e através dela conseguir a tão almejada Liberdade. Portanto, o que podemos concluir é que na realidade fica difícil responder com precisão a pergunta que muitos adeptos do Candomblé gostam de fazer: Qual é a sua nação? Será que alguém é capaz de responder a isso com precisão? Ou na verdade o Keto possui dogmas do Angola, do Gêge e vice-versa? O Candomblé na realidade é uma reunião de várias etnias e culturas africanas, que aqui no BRASIL teve como fundamento principal a busca pela LIBERDADE, no seu sentido mais amplo possível, pois engloba a LIBERDADE FÍSICA, a LIBERDADE RELIGIOSA, a LIBERDADE CULTURAL.
Muitos cânticos que fazem parte do Candomblé traduzem com extrema maestria o negro escravo em sua busca incessante pela Liberdade, como por exemplo:

Ògún ni tó kó bó àlé
Ariwo lòré
Ògún ni tò kò bò alé
Ariwo lòré

Texto: Ògún é suficiente para nos mostrar o caminho para fugirmos a noite. Temos um amigo e clamamos (por ele). Ògún nos ensina a colocar tudo em ordem e o idolatramos e clamamos toda noite por nosso amigo.

È'níhà gògò òwurò
Àjà lewò
Orò dìde òsi ríhe ogun àkòró
M’àbò wúre ìróko
E níhà aşálè
M’àboò wúre o

Texto: Vós ireis para o lado de lá, para preparar os bastões para os frutos e colocá-los no depósito pela manhã. (Os deuses) são muito generosos. Nós precisamos ter saúde para crescer e assim, poderemos resgatar o que de nós tiraram; (tudo aquilo que pertencia aos nossos antepassados: a liberdade, a cultura, a tradição e outros legados). Lutaremos pela nossa liberdade e pelo direito de igualdade. Logo, logo estaremos retornando e então, rogaremos aos mais velhos pelas bênçãos dos deuses com muito aferro. Agora, posso garantir-lhes.

Awa dé ló d’oni’o
Awa dè ló d’òni’o jèlénké
Òdúnmòdún là jíjìnna tilè wé
Awa dè lò d’oni’o jèlénké

Texto: Nós partiremos daqui, e de hoje em diante, cultivaremos o nosso próprio sustento. Unidos faremos as mudanças necessárias. Há muito tempo atrás, sonhamos em ver o sol e a lua nascerem. Com liberdade e em um lugar muito distante ficaremos bem. Nós hoje somos bem unidos.

Yé yèyè yèyè òkè o!
Yé yèyè yèyè òkè o!
Àilãlà ké àlá kúré
A ibènã mõkùn ãbò
Àilãlà ké àlá kúré
Aibere mõkùn ãbò o!

Texto: Farei todas as vontades à minha graciosa mãe nas colinas! Agradarei à minha graciosa mãezinha de todas as formas nas colinas! Estou acostumado com aquela imensidão infinita, lá é o lugar de meus sonhos, onde me escondo e tenho proteção. Naquela imensidão infinita sou favorecido em todos meus sonhos, até os que não foram pedidos, sim lá sinto segurança para me esconder!

Do ano de 1900 a 1960, a cultura geral aqui praticada sofreu algumas modificações, e não distorções, para poder escapar das repressões. Isso me faz lembrar o que me contavam sobre uma das figuras asquerosas do sistema repressivo contrário ao candomblé e ao seu povo, o comandante ou “delegado” Pedrito, que se pode de certa forma até compará-lo a Jorge Velho com relação a Palmares.
Pedrito era muito temido pelos curandeiros. Filho de Xangô carregava consigo o sadismo e o extermínio em seus olhos; aterrorizava tanto os negros feiticeiros que ganhou uma cantiga com seu nome que alertava as comunidades de sua chegada, que era assim:

Parem com o atabaque
Pedrito vem aí
Ele vem gritando
Kao kabiesi!

A parem com o atabaque
Que vou dá a despedida
Eu não sou fifo pra engolir tanta torcida
(fifo era candeeiro de querosene, e a torcida era o algodão feito em corda no qual se acendia o fogo).
Estas cantigas entre tantas outras foram cantadas de 1910 a 1930, até que no final de 1930, Pedrito sucumbiu perante um toque de Xangô, onde ele e seus asseclas haviam ido para acabar com o festejo e castigar a todos indiscriminadamente. Segundo a narrativa, dos mais velhos.

Em pleno século XXI, voltamos àquela época ao sermos coagidos a abandonar nossa fé. A Intolerância Religiosa, infelizmente se mostra novamente presente como no tempo da escravidão. Talvez pior, pois hoje não é o senhor branco o único algoz, mas muitos descendentes de africanos que rejeitam sua cultura primitiva. E em nome de Jesus se tornam os novos Inquisidores, procurando obrigar com perseguições absurdas, os que cultivam a cultura a seus Orixás de origem, a abandonarem seus ritos. Torna-se primordial então, olharmos para trás e pegarmos como exemplo o que os nossos ancestrais passaram, e como o Candomblé serviu perfeitamente aos propósitos daquela época. As antigas associações de Candomblé usavam seus poderes para denunciar as condições sociais, culturais, políticas e estruturais de seus adeptos. O Candomblé foi uma arma de denúncia, defesa, e ataque a tirania da escravidão. Tentemos, hoje, trazer nossos barracões, associações, também com elevados propósitos de nossos ancestrais. Tratemos nosso Candomblé com respeito, dedicação, mantendo as tradições, mesmo que tenhamos que adaptá-lo a realidade e algumas necessidades dos dias atuais. A União se faz necessária, só assim conseguiremos vencer esta absurda INTOLERÂNCIA RELIGIOSA.
Mais uma vez buscando pela nossa LIBERDADE SEMPRE!